domingo, 7 de abril de 2013

Aventuras em série


Depois de vinte e seis edições, é possível afirmar com certeza: não existem duas Jornadas iguais. Cada uma tem uma identidade própria, uma espécie de personalidade que é construída a partir de vários fatores, mas inclusive e principalmente o perfil dos participantes, o destino, os locais visitados, o ritmo dos passeios e os eventos não programados que permeiam o planejamento inicial. A 26ª Jornada Fotográfica não escapou à regra e criou uma identidade especial, que marcou e marcará por muito tempo os seus participantes, que voltaram de Canudos encantados e contagiados por toda emoção, aventuras e descobertas vividas nos três dias de viagem. Em particular, as três novatas Luciana Cajado, Maria Eugênia e Camila Correa, que começaram a sua história conosco em grande estilo.

Tudo começou na manhã da sexta-feira, quando percorremos os cerca de 170Km que separam Petrolina (PE) de Canudos (BA) em cerca de quatro horas, devido ao trecho de terra de aproximadamente 70Km que separa a Mineração Caraíba da cidade de Uauá. Lá chegando tomamos posse dos nossos aposentos na Pousada Marcelle, onde fomos muito bem atendidos pela Gideani e pelo Marcelo, que nos fizeram sentir em casa da hora em que chegamos até o momento da partida.

Na hora do almoço a pequena Canudos estava completamente deserta, em função do Feriado da Paixão. Por sorte reservamos com antecedência o almoço do restaurante da Tia Léia, e dessa maneira conseguimos, através do bode, do peixe e do frango (e também do vinho levado pelo José Carlos) a energia necessária para fazer os passeios da parte da tarde.

Assim, e devidamente conduzidos pelo guia Jamilson, nós fomos conhecer o Memorial Antônio Conselheiro, local onde estão guardadas e expostas fotos, documentos e objetos relacionados com a saga desse mártir e revolucionário que ousou desafiar a República poucos anos após a sua instalação. Pois se foi difícil conseguir até água para comprar nesse dia (“trabalhar na sexta-feira santa é pecado”), era natural que o local estivesse, naturalmente, fechado. Mas o nosso guia localizou e conseguiu que o guarda o abrisse especialmente para nós (vantagens da cidade pequena...) e assim nós pudemos viajar em imagens e textos de Euclides de Cunha e conhecer um pouco mais desse evento marcante da história brasileira. Aproveitamos, também, para tirar fotos com Antônio Conselheiro, que dessa maneira se tornou quase um novo participante das Jornadas Fotográficas. Nem todas, é claro, se sentiram impelidas a isso, afinal de conta esse tal de Conselheiro, ou pelo menos a sua reprodução em cera, era mesmo assustadora!

Dali fomos para o Mirante do lugar, distante alguns poucos quilômetros do centro, de onde tivemos uma bela vista da região, com a cidade de um lado e a represa do outro, e onde desfrutamos, mais uma vez, da companhia do onipresente Conselheiro, dessa vez na forma de uma estátua gigante que parece ao mesmo tempo abençoar e zelar pela cidade e os descendentes da sua saga.

O final da tarde aconteceu na margem da represa, num ponto onde uma espécie de passarela nos leva para dentro da água, vários metros acima o nível da mesma. O céu belíssimo mesclava os vários tons do por do sol e as formas das nuvens para criar pinturas de tirar o fôlego.

Missão cumprida no primeiro dia, hora de tomar banho e jantar. Mas jantar aonde? Na Tia Léia, é claro, que havia ficado de sobreaviso para nos servir também na parte da noite. Para não repetir o bode, o frango e o peixe, a encomenda foram as pizzas, afinal de contas a especialidade da casa. Mas... e o queijo? A pizzaria estava sem queijo! E o que fazer com vinte esfomeados que precisavam comer e contavam com a pizza? Desiludidos, começamos uma perigrinação pelas demais ruas da cidade, atrás de quem mais pudesse nos atender... Doce ilusão! Nada mais funcionava ou funcionaria para nós. Hora, portanto, de voltar par a Tia Léia e implorar para ela conseguir esse queijo em algum lugar. Depois de muita procura e negociação, chegou o queijo e começou a verdadeira tortura: com capacidade para assar uma única pizza de cada vez, foram horas até que todos conseguissem receber a sua fatia!

O dia seguinte (sábado) foi bastante movimentado: de manhã conhecemos o Parque Estadual de Canudos (distante poucos quilômetros do centro da cidade), local que abrigou a comunidade de Conselheiro e foi palco das sangrentas batalhas entre eles e as forças do governo. Muito bem cuidado e sinalizado, o local impressiona basicamente por dois motivos. Em primeiro lugar, porque os vestígios de tão distante guerra (1897) ainda estão espalhados pelo chão, ao alcance dos visitantes, e dessa maneira a passagem do tempo parece encurtada e a força do conflito ressoa com mais força nos nossas mentes e nos nossos corações. Afinal de contas, o que pensar quando, ao caminhar por uma trilha qualquer, você se depara com balas de fuzil não disparadas, restos de armas de época, pedaços de vasilhas antigas e coisas do gênero? Parece que tudo aconteceu ontem...

Em segundo lugar, o visitante é surpreendido com uma exposição permanente de fotografias de artistas de renome, que se dedicaram ao registro da região e da sua população, remetendo sempre ao conflito de uma forma ou de outra, e que, ampliadas em tamanho grande, são afixadas e expostas em grandes placas de vidro temperado que emergem do chão árido e dão ao visitante a sensação de que a terra se mexe para nos contar uma história que não pode ficar esquecida e no silêncio. Distribuída em vários pontos do parque, ela contribui para a áurea de magia que emana do lugar.

Ainda com tempo, fomos conhecer as ruínas de uma igreja remanescente da Canudos nova, mas que estava submersa desde 1969 e, desde então, reapareceu, graças à seca, apenas nos anos de 1997 e agora em 2013. Um verdadeiro privilégio para o nosso time de fotógrafos. Em seguida, conhecemos o Museu Histórico de Canudos, fora do parque, onde mais vestígios estão reunidos num local de pequenas dimensões e cuidado por particulares.

Na sequência, tomamos o rumo da Toca das Araras, uma reserva biológica situada do outro lado da cidade, e que se destaca da paisagem, uma vez que é composta por uma série de morros com paredes de cor avermelhada que emergem do solo, de outra forma plano e sem acidentes. Lá, e num único outro lugar do Brasil ainda é possível ver a ararinha azul, espécie ameaçada de extinção e que tem atraído a atenção de turistas e pesquisadores de todo o mundo. O acesso só era possível com carros adaptados e autorização dos responsáveis, mas mesmo assim conseguimos chegar bem perto e percorrer trilhas e subir morros que nos proporcionaram lindas visões desse complexo num final de tarde que acentuava os tons quentes do lugar.

Cansados, com sede, loucos para tomar um banho e jantar, voltamos pela trilha até o nosso ônibus para descobrir que o mesmo havia atolado num banco de areia e não saía do lugar. Iniciou-se aí uma aventura imprevista e paralela, que avançou noite adentro em inúmeras e geralmente frustradas tentativas de fazer o ônibus se mexer. Cava aqui, cava ali, enxada, pá, pedras, empurra, puxa, tudo e todos foram mobilizados e se cobriram de terra e poeira enquanto a noite se enfeitava com lindas estrelas. Depois de mais de três horas de trabalho e suspense, finalmente conseguimos fazer as rodas girar em terra firme novamente e assim retomar os planos originais com um jantar na Lanchonete do Alemão, com cervejas geladas conseguidas numa fornecedora vizinha.

O último dia (domingo) começou cedo com uma caminhada de cerca de uma hora meia até o topo da Serra do Cocorobó, o local mais alto da região. Apesar de puxada, a trilha foi vencida com paradas estratégicas para descanso e hidratação. Uma vez topo, a recompensa veio através da incrível visão panorâmica que se tem do lugar, abrangendo a cidade de Canudos, a Toca das Araras, o Parque Estadual de Canudos e também e principalmente a represa, cujas dimensões só podem ser corretamente avaliadas a partir desse ponto. Irregular, os seus recortes na terra criam paisagem de grande beleza, ao mesmo tempo em que contrastam a abundância da água com a aridez do solo que a acomoda. Depois de explorar todos os seus ângulos e perspectivas, fizemos o caminho de volta, tomamos o nosso ônibus e nos dirigimos para uma espécie de balneário nas proximidades, com a ideia de relaxar, almoçar e tomar o caminho de casa.

Mas o tal do balneário proporcionou muito mais do que isso. Cortado por um canal que sai da represa, e que serve para levar água da mesma para irrigar as fazendas locais, ele é usado também para refrescar os visitantes que mergulham nas suas águas. Se apenas isso já parece atraente para quem, como nós, chega exausto e consumido pelo sol, melhor ainda é a surpresa e a sensação causada após o banho inicial. Se a água atinge a cintura apenas, por outro a correnteza é forte e o chão é liso como sabão, por conta das algas e limos que crescem ali. Resultado: ninguém consegue ficar em pé, os passos são dados em vão, e todos se sentem o próprio Michael Jackson caminhando sem sair do lugar num canal de irrigação, numa espécie de “moonwalk” aquático no meio do sertão baiano! E, como se pode imaginar, motivo para muita diversão, muitas gargalhadas e muita brincadeira, surpreendendo e contagiando um por um os jornadeiros que ali foram apenas com a intenção de se refrescar.

Depois de tudo isso, e também de um almoço com muitas cervejas, hora de embarcar, comer os chocolates de Páscoa trazidos pelo José Carlos, relaxar e se possível tirar uma soneca, deixando tudo mais por conta do motorista até Petrolina, correto? Em tese sim, afinal de contas a lista de aventuras e emoções já estava além das expectativas mais otimistas para esses três dias de viagem. Mas será que alguém ainda acreditaria que no meio da viagem de volta, no trecho de terra depois de Uauá, no meio do silêncio do descanso merecido e necessário, um princípio de incêndio no ônibus e muita fumaça na cabine ainda traria toda a agitação de volta?

2 comentários:

  1. Do jornadeiro Cícero Benício da Silva:

    Parabéns ao Marcus pelo belo resumo que fez da nossa inesquecível viagem a Canudos e parabéns também a todos os Jornadeiros que em nenhum momento das adversidades desanimaram e também o nosso motorista...Cabra bom! E só ccomplementando o resumo de Marcus, teve ainda pra fechar com chave de ouro, o último percalço da viagem, quando a temperatura do motor do micro-ônibus que normal é 80 e chegou a 100, obrigou o nosso motorista a parar numa pista que praticamente não tinha acostamento nem pra uma bicicleta, a colocar o nosso resto de água mineral no radiador e com isso seguirmos o restante da nossa viagem sem problemas!

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  2. Mas, e daí se o ônibus atola ou pega fogo?
    "A 26ª Jornada Fotográfica não escapou à regra e criou uma identidade especial, que marcou e marcará por muito tempo os seus participantes."
    ...Guardarei essa viagem sempre-sempre, entre as melhoras lembranças. Por quê ela ainda faz parte da gente, não é?

    Lu.

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